quarta-feira, 3 de abril de 2013

:: Sinais de uma Igreja Viva ::


"Habite ricamente em vocês a palavra de Cristo; ensinem e aconselhem-se uns aos outros com toda a sabedoria, e cantem salmos, hinos e cânticos espirituais com gratidão a Deus em seus corações."  Cl 3.16



A carta de Paulo a Colossenses sem dúvidas é um daqueles textos onde nós percebemos as emoções do autor falarem nitidamente em nosso coração. Nesta carta vemos um Paulo empolgado, feliz e cheio de boas expectativas pela recém inaugurada igreja que começara naquela região. Através de Epafras, o povo de Colossos teve acesso ao evangelho e compreenderam a mensagem da graça que os libertou do domínio das trevas para o Reino do Filho amado de Deus. (1.6-7 e 13).
Junto com essa expectativa e felicidade vieram também, partindo do apóstolo, sentimentos de alguém cuja responsabilidade pela propagação da Palavra foram dadas pelo próprio Jesus, e o apóstolo se preocupa em orientar a jovem igreja em um caminho sobremodo elevado para que eles vivam uma vida de abundância espiritual no seu cotidiano tornando-se assim uma igreja viva e saudável em sua região.


A carta é repleta de conselhos e ênfases. Em Cl 3.16 Paulo destaca alguns pilares que mostram práticas que realmente levam a igreja do Senhor a uma esfera maravilhosa de graça e presença de Deus se praticadas cotidianamente e que podem tornar os ministérios locais em ambientes agradáveis e motivadores para seus membros assim como o verdadeiro ambiente para a manifestação do Espírito Santo no exercício de seu fruto e sua missão.

O saudoso pastor anglicano John Stott em seu livro Sinais de uma Igreja viva enfatiza a importância de algumas evidências externas na vida da igreja para que ela possa manifestar e ser abençoada com o senhorio do senhor Jesus. Sinais que foram ensinados pelo próprio Cristo e vividos pela igreja primitiva e que o apóstolo agora transmite aos colossenses. Vejamos a seguir alguns desses sinais no texto de Paulo.


1.       "Habite em vocês a Palavra de Cristo..." - Nossa vida e identidade como igreja devem ser medidas pelo nosso esforço em vivermos dentro e somente dentro daquilo que fora ensinado por Cristo e transmitido por seus apóstolos. É o que chamamos na missiologia de Tradição Apostólica (crer e viver o que Jesus ensinou).

Em tempos onde as teologias, cargos e lideranças tem sofrido tantas deturpações conceituais compreender o que significa habite em vocês a Palavra de Cristo é de extrema importância.

Desde o livro de Atos observamos na igreja primitiva uma preocupação em perseverar na doutrina dos apóstolos mesmo mediante a tantas heresias e pensamentos sedutores que enfeitavam a mensagem da cruz. Perseverar na doutrina dos apóstolos significava entender que tais homens foram comissionados diretamente pelo Senhor para alargar as fronteiras do ministério de Jesus e que passaram pela prova de terem suas vidas e seus ministérios lapidados por Cristo.

Observemos que a igreja de Atos não conhecera Jesus pessoalmente ou ouviram o seu discurso mas, o caráter, a consistência, piedade e temor que os apóstolos transmitiam validava seus pensamentos teológicos e faziam com que a igreja se sentisse amparada e bem assistida.

Nos nossos dias o próprio neo-apostolado tem sido alvo de muitas discussões e muitos desses tais apóstolos tentam se equiparar em poder e em importância aos apóstolos de Cristo mas a verdade é que nem mesmo a Igreja primitiva decidiu levantar outros apóstolos por saber que essa era uma tarefa exclusiva de Jesus. Inácio da Síria, bispo da Igreja no séc III em suas cartas para as igrejas que liderava enquanto era levado para a decapitação em Roma declara: "Nem ouso falar-lhes com a mesma autoridade de Pedro ou Paulo, pois tais homens foram levantados diretamente por Jesus..." Notemos que a igreja fala de tradição apostólica (zelo pelo que eles ensinavam) e não sucessão apostólica (sucessores do papel dos apóstolos de Cristo).

As teologias vigentes em muitos aspectos parecem desenvolver um papel contrário àquele de nos impulsionar para próximo do Senhor e retiram de suas reflexões hermenêuticas a centralidade e o conteúdo cristocêntrico do evangelho. Mistura-se marxismo com evangelho, libertinagem com vida cristã, dinheiro com devoção mas pouco se fala da teologia da Cruz que nos aponta para o Autor e consumador da fé.

Habitar em nós a Palavra de Cristo aponta para vivermos como esses irmãos que primavam por viver o Evangelho como fora desenvolvido nos primórdios, sem modismos e sustentado pela poderosa ação do Espírito.


2. Ensinem e aconselhem-se uns aos outros com toda sabedoria - Nosso ambiente eclesiástico deve ser repleto de confiança, maturidade, respeito e temor a Deus para que juntos possamos construir um ambiente terapêutico onde a Palavra, a fé e a oração sejam mecanismos de tratamento do Senhor para com seu povo.

Em seu livro, Stott afirma que outro sinal vital da Igreja de Jesus é a koinonia. Ele afirma que uma igreja que prova da ação do Espírito Santo é estimulada a viver uma fé que faz alusões à própria trindade comunitária.  É impossível um cristianismo solitário e impessoal e a comunhão é uma das principais razões de ser igreja. "Amai a Deus sobre todas as coisas e o próximo como a si mesmo" já diz o mandamento.

É no relacionar que a igreja ganha forma e se solidifica. Uma igreja onde a experiência dos mais idosos é aliada com a vitalidade e disposição dos jovens dando o devido valor e atenção a ambos torna-se esse ambiente de manifestação coletiva da ação de Deus. O salmista até compara a comunhão entre os irmãos como o orvalho que desce sobre o monte. Esse orvalho que vinha do alto da montanha é que se tornava um grande braço de rio que irrigava as plantações e gerava comida para o povo no deserto comparando assim a koinonia como algo que gera vida e mantém seres humanos vivos no meio da igreja.


3. Cantem salmos, hinos e cânticos - Celebrar a vitória, os feitos e a exaltação à pessoa do nosso Deus devem fazer parte da nossa liturgia pois são nas cancões que também externamos nosso afeto pelo nosso Senhor e deixamos fluir de nosso interior aquilo que Ele representa para nós.  A igreja deve viver esse ambiente de adoração e louvor a seu cabeça, Cristo.

Só existe igreja por causa da vitória de Cristo e nossa esperança é que um dia celebremos juntamente com ele seus gloriosos feitos.

As reuniões da igreja primitiva eram repletas de comemoração pela ação da Graça maravilhosa nas vidas dos salvos. Por isso eles comiam, bebiam e tinham refeições ágapes constantemente. Igrejas que não possuem uma alegria contagiante em sua hinologia e na sua práxis dificilmente estará celebrando com esperança o retorno do Rei.

O apóstolo convida os crentes em Colossos a celebrarem com júbilo ao Rei de toda a terra pois seus feitos são inigualáveis e são em nosso favor.


4. Gratidão a Deus em seus corações - Paulo alerta para a gratidão pelo simples fato de sermos contados com aqueles que agora tem direito a uma herança reservada aos santos, nosso sentimento deve ser sempre de gratidão por algo que não merecíamos mas nos foi presenteado através de Jesus. Já dizia um teólogo puritano: '"podemos medir um cristão pelo tamanho de sua gratidão a Deus pela salvação em Cristo."

Gratidão reflete o sentimento de incapacidade de conseguir algo por nós mesmos. Quando levamos esse sentimento para a esfera da salvação nos constrangemos entendendo que nunca saberemos como poderemos retribuir o que Cristo fez pela sua igreja.

Ser grato significa mesmo nos momentos adversos entender que somos alvo da Graça e que essa Graça nos foi presenteada sem méritos pessoais.

As teologias modernas isolam nossa gratidão e a substituem por jargões do tipo: "eu tenho direito! eu determino! eu exijo!" mas a Bíblia nos impulsiona a pensar como o mesmo Paulo em Filipenses quando ouve do Senhor: "A minha graça te basta!"

Uma igreja grata é ambiente do Espírito e viva em obras e poder porque sabe que seu papel aqui é apenas o de servir de canal de graça divina e não meramente depositária.  Por ser grata essa igreja transmite a mensagem do Evangelho e o Senhor como resposta "...acrescenta dia após dia os que são salvos."

Amados, busquemos essa dimensão ministerial para nossas igrejas e desfrutaremos de uma gloriosa manifestação da graça e da misericórdia de Deus em nossas vidas!