segunda-feira, 24 de outubro de 2011

:: Ser ou não ser: o desafio da igreja moderna ::

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Tenho gasto um tempo especial do meu cotidiano lendo, pesquisando, refletindo e às vezes, quando meu possível déficit de atenção permite, produzindo alguns textos (a maioria sem chegar a uma conclusão ou a um final) sobre o atual momento em que nossa eclesiologia vive. Ou melhor, porque nossa forma de ser igreja tem sido um tema tão discutido e mesmo deturpado ao longo dos anos.
Nesse exato momento, estou rodeado por algumas obras de autores célebres que gastaram muito mais tempo que eu refletindo sobre o tema e já produziram uma vasta literatura sobre o assunto. Tais autores, que dentre eles cito Frank Viola, autor de Reimaginando a Igreja, Kevin Deyong e Ted kluck, autores de Porque amamos a Igreja e Charles Van Engen, autor de Povo missionário, povo de Deus, nos levam a pensar na crise (que aqui denominarei crise de essência) que a igreja visível de Cristo tem enfrentado. Destaco o termo visível por entender que a Igreja em sua conotação escatológica, a qual somos desafiados a participar tem uma conotação bem mais ampla, transcedente, imaculada e celestial e que nossos olhos carnais não podem contemplar e muito menos compreender na imensidão de seus mistérios.

É essa mesma Igreja, só que também chamada de Igreja Invisível, espalhada por toda a terra e não limitada a espaços geográficos ou culturais, a credos e a usos e costumes que Cristo se refere como a qual ele vai apresentar para si como imaculada e que desposará com ele na eternidade. (Ef. 5:27 - "para apresentar a sim mesmo igreja gloriosa, sem màcula, nem ruga, nem qualquer coisa semelhante, mas santa e irrepreensível.")
Essa igreja, a invisível, que fora projetada na eternidade e que é visualizada no livro de apocalipse como sendo participante do grande coral celestial que cantará por toda a eternidade a santidade do Cordeiro não passa por problemas, não está a mercê da corrupção de líderes gananciosos que pastoreiam a si próprios, e muito menos fadada ao fim, pois essa Igreja está consumada na eternidade e é fruto da graça divina de Deus demonstrada para o homem decaído. Ela é a forma final e magna da igreja visível e é o molde final para qual a Igreja terrena está caminhando.
Mas, por outro lado, temos a igreja visível, essa igreja que é limitada pela relação espaço-tempo e que é formada dentro de padrões morais, culturais e comportamentais. Essa Igreja, a visível, é comparada por Cristo como uma semente de mostarda que, embora carregue em seu DNA uma árvore frondosa e gigantesca, mostra-se pequena e até mesmo insignificante, mas ainda assim é uma àrvore frondosa (Mc. 4:31-32) e nessa luta constante do que é e ainda não é que a igreja visível vive seu conflito.
Nas palavras de Van Engen:

" ...ela (a igreja) é uma comunidade plenamente formada, um sacramento vivo e um sinal diante de Deus, de seus membros e dos que estão fora de suas paredes. Mas, ao mesmo tempo, està no processo de tornar-se o que ela de fato é por natureza."

A Igreja portanto, surge naturalmente, no processo onde os eleitos se reúnem para adorar a seu Senhor, mas ela já surge com características sobrenaturais, pois nasce para e em torno do Rei dos reis, e assim, mesmo com um número reduzido de pessoas "as portas do inferno não prevalecerão." (mt.16:18).
O dilema surge na cabeça dos pessimistas em relação à igreja porque aquilo que os nossos olhos podem ver, a igreja visivel, não reflete em sua magnitude tudo aquilo que a igreja invisivel pode oferecer então cria-se um ponto de tensão que se não for administrado trará consequências irreversíveis para o povo de Deus.
Se os nossos olhos estiverem totalmente e limitadamente voltados apenas para o que a igreja é, ou seja, na igreja visível, provavelmente seremos desmotivados por toda série de problemas de todos os aspectos que esta igreja está envolvida pelo simples fato de ser composta por pecadores que ainda cometem pecados e que às vezes não entendem seu papel como anunciadores do Reino de Deus. Na igreja visível, onde se vive o ambiente de cumprimento de metas e estratégias, modelos e agendas existe a possibilidade de erros porque são seres humanos que a dirigem e sobre essa igreja que ainda é uma projeção daquilo que ela vai se tornar (sem o aspecto humano decaído, é claro!) que a turma do Frank Viola e do George Barna, pessimistas assumidos, tentam reimaginar uma nova forma de existir como nos primeiros séculos, enquanto a tuma do Kevin e do Ted tentam mostrar que vale a pena amar, mesmo com tantas falhas, mas olhando para os resultados positivos que ela tem alcançado. Mas ambos, indescutivelmente, apontam para uma trilha que mostra que essa igreja visível tem um molde a se encaixar para poder tornar-se aquilo que ela nasceu para ser. E juntos, assumem que na dependência do Cabeça do corpo há sim um brilhantismo na igreja visível.
O que podemos concluir então?
A Igreja pela qual Cristo deu a sua vida é uma igreja gloriosa, fortalecida por aquele que a chamou, mesmo nesses tempos de crise de essência essa Igreja permanece firme, alicercada e ansiosa pelo retorno do seu Noivo. Focado nessa realidade é que devemos nos esforçar para desenvolvermos nossa salvação (Fp. 2:12) e nos apresentarmos de modo digno de nossa vocação (Ef. 4:1). Essa igreja não está correndo risco de um dia naufragar e não irà sucumbir às investidas malignas.
A igreja visível, ainda que esteja sendo bombardeada por ideologias anti-igrejas e realmente tenha sido responsável por vários erros no passado ainda assim é a Igreja de Cristo, composta por seres humanos que caminham na trilha da santificação e por estarem no caminho ainda cometem falhas e erros. Mas essa Igreja tem um referencial de todo o poder, glória e majestade que ela de fato virá a ser e por isso deve fortalecer sua existência ser credibilizada como aquela que será recebida pelo Rei mesmo que no momento presente ela ainda não viva a amplitude de sua essência.
Por isso, creio que o dilema atual da nossa eclesiologia se findará quando começarmos a enxergar esse potencial eterno que a Igreja de Cristo possui e passarmos a encarar nossa existência como uma preparação lapidativa para o glorioso dia do encontro com o nosso amado Noivo.