segunda-feira, 20 de junho de 2011

::Aonde vamos parar com as tais “divisões denominacionais”?::

Tenho investido um tempo considerável da minha vida estudando uma eclesiologia que mais se aproxime do proposto pelas proto-igrejas do NT. Como considero os primeiros cem anos da igreja como essenciais para uma proposta eclesiológica teo-referente tenho lido a bíblia com uma lente histórica, tentando entender o sentimento e a motivação dos cristãos daquela época em se reunir para ser igreja.

Passando por diversas vias de análise, que passam desde a liturgia de nossas reuniões versus os encontros neo-testamentários e vão até o modo como celebramos a ceia, às vezes sem o elemento eucarístico que lhe está implícito, tenho me preocupado em particular com o denominacionalismo que tanto atrapalha a igreja atual em sua proposta maior que é refletir a PERICORESE (a “dança” harmoniosa da trindade)divina.

Ao longo dos anos as denominações têm ganho um espaço muito grande na nossa forma de ser igreja. E às vezes ganham até mais importância do que o próprio fato de ser igreja. Não é novidade vermos crentes por aí que defendem muito mais sua denominação do que a própria igreja de Cristo e isso tem sido um veneno mortal para a fé de muitos que trilham o caminho estreito da salvação.

Minha vida cristã iniciou em uma igreja batista tradicional, com toda aquela liturgia e pragmática de uma igreja que não se aliava com as tais igrejas avivadas dos anos noventa. Após algum tempo fui participar do corpo de cristo na Assembléia de Deus, a convite de uma grande amigo e companheiro de jugo ministerial e lá percebi os extremos de uma espiritualidade baseada no esteriótipo e na superficialidade de uma fé fundamentada no conteúdo canônico (geralmente nessas igrejas as experiências valem mais do que a Bíblia) e paralelamente em uma igreja da convenção batista nacional e por essa denominação fui indicado para formação ministerial. Lá conheci a história da denominação, ouvi nomes como por exemplo; Enéas Tognini, Jonas Neves, entre outros que “iniciaram” o processo de avivamento dentro da convenção Batista. Durante essa época que também me aproximei dos irmãos presbiterianos (devido ao estrago que o movimento herético G12 estava fazendo na CBN decidi romper com a denominação) e durante meus anos estudando e participando da igreja presbiteriana percebi o apego que eles tem pela “pureza doutrinária e litúrgica” mas que em contrapartida os deixam a margem de uma vida piedosa prática, que o faça transpor as barreiras do academicismo e operar o milagre da multiplicação dos pães. Atualmente pastoreio uma igreja sem proposta denominacional (mas que disfarçadamente sofre dos mesmo males de todas as outras citadas acima).

O que pude então tirar de lição dessa minha jornada em busca de uma igreja ou grupo religioso que mais se aproximasse daquilo que a bíblia chama de Eclésia?

O texto de 1Co. 3: 3-5 é uma exortação do apóstolo Paulo para os crentes em Corinto sobre uma atitude que eles estavam tendo de causar divisão entre o corpo tendo um certo partidarismo doutrinário entre si. Automaticamente sou levado a refletir se as figuras citadas no texto (Apolo e Paulo) não representam atualmente a tendência criada para refletirmos as nossas convicções comportamentais e doutrinárias, como por exemplo: eu sou presbiteriano! Eu sou batista! Eu sou assembleiano!

Muitos acreditam que o denominacionalismo surgiu como uma forma de precaver e cobrir o igreja contra possíveis disfunções e desvirtuamentos teológicos surgidos ao longo dos anos. A idéia central seria a de preservar e agregar os irmãos que pensavam iguais para não se deixarem contaminar com as heresias que tanto assombravam a igreja.

Mas com o passar dos anos as denominações se tornaram algo burocrático, hierarquico, institucional, frio e longe de uma poemênica mais cristológica. Para perceber o que eu falo é só analizar as estruturas denominacionais e iremos perceber o quão distantes da proposta apostólica elas estão e mais próximas ao romanismo católico caminham. E a semelhança não é meramente organizacional mas sim na própria essência, pois assim como temos em Roma uma hierarquia que começa nas paróquias e acaba no vaticano (no representando infalível de Deus na terra) temos também nas denominações “cargos e títulos” extra-bíblicos que remetem a uma posição suprema de autoridade (única ou de um grupo restrito) que rege os caminhos aos quais a denominação deve seguir.

A proposta neotestamentária diverge do quadro desenhando acima. Vemos no NT o tratamento apostólico a cada igreja como sendo um organismo autônomo e autogovernável, submetido apenas à supervisão apostólica e à vontade de Deus para aquela congregação (Ef. 5:14; Cl. 1:9-10). A proposta aqui era a que cada igreja estava sujeita ao Cabeça e que a unidade espiritual e orgânica da Igreja mostrava que todo tipo de federalismo doutrinário eram de caráter repugnante pois todos viviam “... uma só fé, um só Batismo, um só Senhor e pai de todos...” e também deviam cooperar e ajudar entre si para que o fortalecimento fosse do Reino de Cristo e não de bandeiras denominacionais.

Em uma estrutura assim institucional e hierárquica a Igreja de Cristo torna-se mais vulnerável às insvestidas de Satanás do que ela discursa pois, numa denominação em forma de pirâmide de poder basta um líder se corromper teológicamente para que todos os seus submissos sejam facilmente corrompidos, pois não há uma autonomia para questionamentos, uma vez que os questionadores, nesse tipo de estrutura, são tratados como dissidentes e rapidamente são cortados do convívio ministerial, por questionarem a “visão de Deus” para o grupo. É um paradoxo existencial para a própria função denominacional que era a de proteger e agregar os crentes em um “grupo fechado e seguro da fé”.

Em contra-partida, em uma igreja autônoma, inter-relacional e orgânica seria quase impossível que um falso pregador disseminasse seus ensinamentos heréticos para um grupo amplo de cristãos, pois os pastores e membros teriam a liberdade e a autoridade em Cristo de alertar uns aos outros e a falsa “autoridade e infabilidade papal” que as denominações constroem em torno de um ser humano não seria sustentada pois todos são parte de um mesmo corpo onde o cabeça é Cristo.

“...Em poucas palavras, o sistema denominacional tem gradativamente fragmentado o corpo de Cristo segundo seus pressupostos partidários religiosos. Ele tem isolado a família de Deus em tribos separadas. Ele tem desintegrado o tecido de nossa fraternidade espiritual em um emaranhado sem-fim de partidos religiosos e tem fraturado a comunhão do povo de Deus com sectarismos doutrinários, retalhando o Corpo Invisivel em muitas partes frágeis e sem direção divina.” (Viola, F. reimaginando a igreja, Brasília-DF: Palavra, 2009)

O fato em questão aqui não é o anti-denominacionalismo ou mesmo o interdenominacionalismo, pois ambos no final tornariam-se tão hierárquicos quanto o que estamos criticando aqui, mas sim uma releitura de nossa estrutura eclesiástica que nos permita viver uma igreja menos institucionalizada e mais orgânica, mais familiar que busca uma interação entre seus membros e onde pastores se olhem de igual modo e vejam uns aos outros como amigos de ministério e não como concorrentes. Igrejas fortalecidas naquilo que C. S. Lewis chamou de Cristianismo Puro e Simples – a crença comum a quase todos os cristãos de todas as épocas; crenças fundamentais e pilares do cristianismo que são princípios norteadores para todos os cristãos de forma atemporal.

Acredito que aqui não construirei uma solução para o problema. Mas tenho gasto bastante tempo lendo, orando, pensando e o caminho norteador tem sido o de resgate para uma igreja mais familiar, onde as pessoas entendam o teor da palavra “irmão” e se vejam como família. Onde o pastor não seja um profissional da fé, mas sim um amigo que se preocupa em cuidar daqueles quem o Senhor da Seara os confiou. Imagino que a resposta seja uma igreja onde os crentes não sejam meramente a platéia de uma performance pastoral com uma homilética perfeita e sim um organismo vivo e operante que demonstra o Reino de Deus no mundo, agente missiológicos de um evangelho transformador. Acredito que a resposta também passa pela libertação de nossas mentes de um evangelho partidário, longe de um denominacionalismo humano e extra-bíblico e se volte para a unidade proposta por Cristo e sonhado pelo Pai.

Enfim, acredito que a resposta está nitidamente em Sua Palavra. Basta ouvirmos mais e falarmos menos, lermos mais com o coração do que com os diplomas. Sermos ovelhas e menos cientistas da fé pois a partir daí entenderemos a conclusão paulina do que Paulo falou no texto de coríntios: “...Afinal de contas, quem é Apolo? Quem é Paulo? Apenas servos por meio dos quais vocês vieram a crer, conforme o ministério que o Senhor atribuiu a cada um.”

Sola Missio